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Das extensões dos elásticos invencíveis


Entendo bem que um livro, uma vez lançado, tenha trajetória própria e avance para lugares e contextos que o autor sequer imaginou. Nisso ele se parece com uma cria a quem gestamos, parimos, criamos, acompanhamos o amadurecimento e, depois, com algum aperto no coração, vamos vendo aquele Ser ganhar o mundo. Viramos torcida. Quando possível, damos um pitaco aqui, outro ali. Mas, não temos o menor controle de nada, aliás melhor que seja assim. Corta-se o cordão, ligam-se os elásticos!


Minhas filhas são pequenas, ainda estou no começo de todo este processo. Já o Tic-Tic, meu primeiro livro infantil, depois de muito empenho, começa a se lançar neste mundão. Isso literalmente, já que ele está à venda em 3 línguas e em vários países. Sonho grande o meu. Mas, é de quem está pertinho ou melhor, está conectado a mim, que tenho ouvido coisas emocionantes sobre o livro e, com alegria, fico pensando na rede de afetos que o elástico que criei tem gerado. E penso com uma história, minha com minha primeira filha, tem se tornado várias outras.


A história do menino que passou pelo CTI e se reconheceu imediatamente no personagem. A história da menina que foi adotada e tem um imenso segredo de amor com a mãe. A história da criança que ligou o elástico e finalmente não correu pra cama da mãe de madrugada. A história da menina que quis saber se o elástico nos ligava a quem está no céu. A história dos pequenos pacientes de um hospital que estão afastados dos pais em meio a pandemia. A história do garotinho que na hora de dormir faz ”shhhhhh” para pedir a leitura. A história da pequenininha que não sabendo ler decorou as falas. São muitos pequenos coautores se entregando a fantasia para se fazer entender e para buscar compreender realidades complexas para qualquer sujeito.


Me perguntei uma vez mais: o que faz a metáfora de elásticos invisíveis de afeto tocar tanto às crianças e aos adultos? Algumas pistas. Há uma bela concretude estampada em meio as fluidas aquarelas que compõem o livro. Há medo, há acolhimento, há ternura e claro, há um amor genuíno. Entretanto, se olharmos com atenção, para além de uma historinha infantil, Tic-Tic explicita uma condição de desamparo humano que só se assossega quando nos ligamos ao outro. É que parece nascer no corte do cordão umbilical um medo original de estar só. E o que fazemos depois de experimentar essa sensação arrebatadora é tratar de constituir, conservar, destruir, refazer... laços afetivos. Nosso constante exercício de criar modos possíveis de estar no mundo com o outro.


Assim, sigo torcendo pela continuidade de um enovelamento amoroso, tecido entre o vai e vem dos elásticos de afeto que costuramos, ponto a ponto, no breve ato de existir.

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 2020 by  graandrade, Belo Horizonte, MG, Brasil.

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