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  • graandrade

Enquanto esperamos


Mergulhada em um universo próprio de criação e fantasia, admiro minha filha de 5 anos brincando despreocupada em seu real paralelo. Ela está avisada do que acontece. Sabe da ameaça do “colonavírus”, reclama saudades dos amigos e de suas atividades, mas está protegida por sua capacidade de imaginar. Imaginar os amigos que sempre a acompanham no confinamento, as aventuras e perigos pelos quais passam diariamente, as vitórias (claro!), as perguntas e respostas dos insetos do quintal com os quais interage. Imaginar, especialmente, que logo, logo tudo isso acaba e a vida volta ao normal. Quem sabe aí a vizinha responde ao desenho que passou por debaixo de sua porta, já que não poderia visita-la mais? Ela espera e imagina.


Por outro lado, vejo as notícias na TV. Percebo então que o real, nunca esteve tão próximo e é avassalador. Se, como seres humanos mediados e constituídos na linguagem, não temos outra forma de nos aproximar da realidade a não ser nomeando-a e dando a ela significado, Ele (o real) parece avançar sobre nós com uma concretude absoluta. Vem vindo como um tsunami dotado do poder da invisibilidade a nos engolir junto as nossas estatísticas, curvas, medidas de prevenção, testes de vacina, suposições, desavenças políticas ou qualquer coisa que consigamos pensar ou fazer para minimizar os danos desta onda que sem dúvida cresce e vai estourar sobre nós.


O real anda tão próximo que a mídia coincide com a notícia. As emissoras, no fatídico trabalho de tornar fenômeno um acontecimento corriqueiro para ganhar audiência, agora tem esforço mínimo na criação de pautas. Recolhem, arranjam e costuram retalhos do dia: quantos adoeceram e morreram, a quantas vai a economia mundial, o que políticos dizem/fazem ou não, como sofrem os mais pobres e vulneráveis mundo a fora. Não é preciso inventar para chocar.


É de uma simplicidade tão dura que nenhum filme de ficção desses indicados a grandes prêmios conseguiu captar. Um vírus. Um vírus com imagem simpática que poderia habitar qualquer desenho animado. Um vírus que é um dos organismos vivos mais simples que existe. Um vírus que tem como poder letal sua capacidade de viver e se reproduzir. Um vírus que alarma o mundo e simplesmente promove o caos perante a complexidade que é a existência humana na terra, falando aqui de um modo pragmático.


Diante dessa ameaça nada ficcional, nos cuidamos, nos viramos e esperamos. E enquanto 1/3 do mundo já está, em melhores ou piores condições, em “prisão domiciliar”, bom será se tivermos a capacidade de resgatar minimamente a capacidade imaginária que ficou guardada em nós. Neste momento, um mergulho no universo fantástico pode nos salvar de muitas coisas ou ajudar a vencer um dia que seja. Um dia de cada vez. É preciso criar escapes.


Um primeiro caminho para isso pode ser se valer da arte em sua multiplicidade. Muito longe de estar descolada da realidade, a arte é capaz de desvelar o mundo de novas maneiras, apresentar-nos possibilidades, interpretações pessoais e plurais. Entendo que ela tenha a capacidade de criar camadas ficcionais que, por vezes embrulham, forram e administram de alguma maneira este nosso contato com o real. Por outras, ao contrário, o desnudam com dureza, abrindo até Ele um caminho agudo e de difícil passagem. Assim, seja qual for o campo artístico que mais te atraia, o importante agora é se perceber antes de escolher o que ver, ouvir, dançar ou ler. Visualizando o fundo do rio antes do mergulho, teremos a chance de uma quarentena menos seca.


Por fim, se você tem a chance de ter uma criança no seu enclausuro e está conseguindo não pirar com isso, aproveite para pedir uma carona até o reino da fantasia. Hoje eu fui a Elza II e usei meus poderes de rainha do gelo para congelar uma onda gigante que acabaria com o meu reino (mães me entenderão). E, por favor, não digam que isso não existe. Não vamos contar para as crianças sobre o mundo que vão herdar. Ainda não, agora não.

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 2020 by  graandrade, Belo Horizonte, MG, Brasil.

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