Buscar
  • graandrade

Epitélio: dança-imagem

A pintura veio pra mim como um presente de Helena, minha filha caçula. Sem ter as bases técnicas do desenho, composição ou pintura, me lancei às telas e papéis por um livre impulso, para parir imagens que me atormentavam diante de um trauma. Quase dois anos depois, começo a compreender o movimento como meu fundamento na criação dessas imagens.

Epitélio, pintura acrílica sobre tela, resultante da experiência do post anterior, 2020

Certamente, em função de minha experiência na dança. De forma mais pragmática dancei sobre telas, deitei-as no chão para receber os giros de meus braços, pisei-as, convidei minhas pequenas a pisá-las. E obtive resultados interessantes, imagens que podem me levar a uma análise de registros da ação a partir, por exemplo, dos fatores do movimento dos quais nos fala Laban: fluência, peso, tempo e espaço. E, por mero exercício de criação, posso inverter o processo, ou seja, dançar uma tela pronta. São inúmeras as possibilidades de associação dança-desenho, para mim há mesmo um imbricamento e um começo de experimentação.


Mas, de maneira menos óbvia, acho que começo a compreender algo - no exercício de dar luz aos desenhos -, sobre o que Agamben tenta nos dizer a respeito da noção de gestos enquanto medialidade, quando afirma: “Não poderíamos definir de maneira mais precisa o poder do gesto como puro meio. Isto que, em cada expressão, resta sem expressão, é gesto. Mas, isto que, em cada expressão, resta sem expressão, é a expressão ela-mesma, o meio expressivo como tal (AGAMBEM, 2011)”.


A pintura, e é claro que aqui digo de minha vivência, é sempre uma deriva, a partir da qual eu mais acompanho e obedeço às tintas do que as consigo manipular. A imagem emerge entre sujeitos horizontalizados, eu, matéria, movimento. Portanto, a intencionalidade deixa de ser uma questão primeira, enquanto a medialidade é o que conduz a algum lugar um tanto desconhecido, que nada mais é do que uma pausa no acontecimento. Uma pausa que, diga-se de passagem, nem sempre se evidencia. Quase sempre fica a questão: será que acabou?


O gesto sendo um meio em si, diz então do corpo sensível do qual é originário e justo por isso nunca pode prometer a completude, é sempre parcial e atravessado pelo tempo-espaço do acontecimento. Essa incompletude, uma não-expressão em si, é algo que pode transitar em uma imagem e ser parcialmente capturada. Não por um olhar que especula na imagem artística um sentido, uma ancoragem na realidade, uma interpretação. Mas, sim por um corpo que se permite o entrelaçamento com aquela horizontalidade que lhe é apresentada. É no corpo a corpo que podemos enfim dizer que uma imagem nos toca.


#comHelena; #dança; #imagem; #gesto; #pintura, #epitélio



34 visualizações

 2020 by  graandrade, Belo Horizonte, MG, Brasil.

  • Facebook Gra Andrade Artista TicTic Livro Infantil História Estória Crianças
  • Instagram Gra Andrade Artista TicTic Livro Infantil História Estória Crianças